Guia Completo de Transtornos Psicológicos
- Psicologia Viva Zen

- 27 de jan.
- 6 min de leitura

Um guia técnico, acessível e baseado em evidências para profissionais e leigos. Aqui você encontrará definições, sinais que merecem atenção, instrumentos de triagem úteis, orientações sobre avaliação clínica e quando encaminhar/solicitar atendimento especializado.
Observação importante: este texto é informativo e não substitui avaliação clínica presencial ou teleatendimento. Se houver risco imediato à integridade de alguém ou necessidade de intervenção urgente, procure serviços de emergência locais.
Sumário rápido
O que entendemos por “transtorno psicológico”
Como reconhecer sinais que merecem atenção
Principais transtornos (definição sintética, sinais comuns)
Instrumentos de triagem e avaliação clínica úteis
Como fazer a avaliação inicial (fluxo prático)
Quando encaminhar, priorizar ou buscar urgência
Tratamentos baseados em evidência — panorama
Considerações especiais (comorbidades, populações específicas)
Recursos e referências bibliográficas
1. O que é um transtorno psicológico?
Transtornos psicológicos (ou transtornos mentais) são padrões clinicamente significativos de comportamentos, pensamentos ou emoções que causam sofrimento e/ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes. Esses padrões são distintos das experiências humanas normais de variação de humor ou reação a eventos adversos. As classificações mais usadas são o DSM-5 (APA) e a CID-11 (OMS), que oferecem critérios para diagnóstico clínico.
2. Como reconhecer sinais que merecem atenção
Alguns sinais de alerta gerais — não exaustivos — que indicam a necessidade de avaliação profissional:
mudança marcante e persistente no humor (p. ex. tristeza intensa que não melhora em semanas)
perda de interesse em atividades antes prazerosas, prejuízo funcional no trabalho/estudo
pensamentos obsessivos, rituais que consomem tempo e interferem na vida
medo/exposição evitativa que limita atividades diárias (p. ex. sair de casa)
alterações severas do sono e do apetite com impacto funcional
pensamentos de desesperança persistente, ideação que precisa ser avaliada por equipe de saúde (procure ajuda imediata)
episódios de humor claramente elevados/irritabilidade que causam prejuízo (hipomania/manía)
alterações perceptivas (alucinações) ou crenças fixas sem base consensual
dificuldade de atenção, organização e desempenho profissional/acadêmico persistente
comportamentos alimentares severamente desregulados ou prejuízo no estado nutricional
Se estes sinais geram prejuízo funcional significativo ou risco (para a pessoa ou terceiros), é indicada avaliação por profissional de saúde mental.
3. Principais transtornos: definição sintética e sinais práticos
3.1 Transtornos de Ansiedade (Transtorno de Ansiedade Generalizada, Fobia, Transtorno de Pânico, Agorafobia)
Sinais comuns: preocupação excessiva, tensão muscular, inquietação, fadiga, dificuldade de concentração, ataques de pânico (sensação súbita de medo intenso com sintomas físicos: palpitações, sudorese, falta de ar), evitação de situações.
Quando procurar: crises repetidas, prejuízo no trabalho/estudo, uso de substâncias para “controlar” a ansiedade.
3.2 Transtorno Depressivo Maior
Sinais comuns: humor deprimido, anedonia, alterações de sono e apetite, fadiga, sentimento de inutilidade ou culpa, lentificação psicomotora, dificuldade cognitiva, ideação negativa persistente.
Quando procurar: sintomas persistentes por >2 semanas, prejuízo funcional, sintomas suicidas/ideação (avalie risco e atue rapidamente).
3.3 Transtorno Bipolar (I e II), Ciclotimia
Sinais comuns: alternância entre episódios depressivos e episódios de elevação de humor (hipomania/mania) com aumento de energia, redução da necessidade de sono, impulsividade, ideias grandiosas.
Quando procurar: manifestações mistas, sintomas maníacos ou alteração do juízo que colocam em risco.
3.4 Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC)
Sinais comuns: pensamentos intrusivos recorrentes (obsessões) e/ou comportamentos repetitivos (compulsões) que a pessoa sente necessidade de executar para reduzir ansiedade; isso consome tempo significativo e prejudica a vida diária.
3.5 Transtornos Relacionados ao Trauma e ao Estresse (incluindo PTSD)
Sinais comuns: revivência do evento traumático, flashbacks, pesadelos, hipervigilância, evitação de lembranças/locais, alterações de humor e cognição.
Quando procurar: sintomas que persistem e impactam funcionamento; risco de retraumatização.
3.6 Transtornos Alimentares (Anorexia, Bulimia, Compulsão Alimentar)
Sinais comuns: restrição alimentar severa, preocupação excessiva com peso e forma, episódios de compulsão seguidos de compensação, preocupação com a imagem corporal; podem afetar a saúde física gravemente.
3.7 Transtornos Psicóticos (Esquizofrenia, Transtorno Esquizoafetivo)
Sinais comuns: perda de contato com a realidade (alucinações, delírios), discurso desorganizado, retraimento social, prejuízo marcante do funcionamento.
Quando procurar: sinais de psicose requerem avaliação médica/psiquiátrica com prioridade.
3.8 Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em adultos
Sinais comuns: desatenção persistente, problemas de organização, procrastinação crônica, impulsividade, dificuldades ocupacionais.
Quando procurar: impacto funcional consistente desde a infância/adolescência ou sintomas persistentes que prejudicam a vida atual.
3.9 Transtornos de Personalidade
Sinais comuns: padrões duradouros de experiência interna e comportamento que divergem da norma cultural, inflexíveis e causam prejuízo no funcionamento. Ex.: transtorno de personalidade borderline, antissocial, narcisista, etc.
4. Instrumentos de triagem e avaliação clínica úteis
Ferramentas breves ajudam triagem inicial e monitoramento. Nenhuma substitui avaliação clínica detalhada.
PHQ-9 (Patient Health Questionnaire-9) — triagem para depressão; sensível e amplamente usado.
GAD-7 — triagem para transtornos de ansiedade generalizada.
PCL-5 — triagem para Transtorno de Estresse Pós-Traumático (PTSD).
AUDIT — triagem para uso arriscado de álcool.
ASSIST — triagem para uso de substâncias (OMS).
Y-BOCS — medida do grau de sintomas obsessivo-compulsivos.
ASRS (Adult ADHD Self-Report Scale) — triagem para TDAH em adultos.
WHO-5 — índice breve de bem-estar (monitoramento).
MINI (Mini International Neuropsychiatric Interview) — entrevista semiestruturada para diagnóstico psiquiátrico.
Danger Assessment (para avaliação de risco em violência doméstica) — quando aplicável.
5. Avaliação clínica inicial — fluxo prático para profissionais
Acolhimento e anamnese breve: queixa principal, história da doença atual, duração, fatores precipitantes.
Avaliação do risco: pensamentos de ferir a si ou a outros, ideação suicida, acesso a meios — se risco, acionar medidas de proteção imediata.
História médica e psicofarmacológica: uso de medicamentos, comorbidades (endócrinas, neurológicas), uso de substâncias.
Exame mental: aparência, comportamento, discurso, humor/afeto, pensamento (conteúdo e perícia), percepção, cognição, insight, julgamento.
Aplicar triagem padronizada (PHQ-9, GAD-7 etc.) conforme suspeita.
Formulação clínica inicial: integre eventos precipitantes, vulnerabilidades, fatores de manutenção e recursos.
Plano inicial: psicoeducação, intervenções de baixo risco (ex.: orientações de higiene do sono), encaminhamento para psicoterapia ou avaliação psiquiátrica quando indicado.
6. Quando encaminhar, priorizar ou buscar ajuda urgente
Encaminhamento prioritário (ou procurar serviço de saúde em menos de 48–72h):
sintoma psicótico novo ou agravamento claro
ideação suicida com plano/meios ou risco elevado
tentativa de suicídio recente
insuficiência alimentar grave ou descompensação orgânica por transtorno alimentar
crise maníaca com prejuízo funcional/agressividade
intoxicação grave por substância ou síndrome de abstinência severa
Encaminhamento na rotina (sem urgência imediata):
depressão moderada a grave sem risco imediato
transtorno de ansiedade incapacitante
TOC com impacto funcional importante
TDAH com prejuízo consistente
transtorno alimentar sem risco orgânico imediato
7. Tratamentos baseados em evidência — panorama
Terapia psicológica (psicoterapia)
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): forte evidência para depressão, transtornos de ansiedade, TOC (adaptada), transtornos alimentares e insônia.
Terapias baseadas em processos (ACT, terapia baseada na mentalização, DBT): úteis em transtornos de personalidade, transtornos de regulação emocional e alguns quadros de ansiedade/depressão resistentes.
Terapia interpessoal, terapia psicodinâmica: opções válidas para depressão e questões relacionais; dependem da formação do terapeuta e das necessidades do paciente.
Terapias para trauma (TF-CBT, EMDR): recomendadas para PTSD e trauma complexo conforme indicação clínica.
Farmacoterapia (por psiquiatra ou médico habilitado)
antidepressivos (ISRS, IRSN) para depressão, ansiedade; estabilizadores e antipsicóticos para transtornos bipolares e psicóticos; antipsicóticos e ansiolíticos conforme avaliação e risco/benefício.
A escolha do medicamento, dose e acompanhamento clínico devem ser realizados por profissional médico capacitado.
Intervenções combinadas (psicoterapia + medicação) costumam superar o uso isolado em muitos quadros moderados/graves.
Abordagens de suporte e intervenções de baixo custo
psicoeducação, grupos de apoio, intervenções digitais validadas (com cautela e supervisão), programas de atividade física e promoção do sono.
8. Considerações especiais
8.1 Comorbidade médica e uso de substâncias
Sempre avaliar condições médicas que podem mimetizar sintomas psiquiátricos (hipotiroidismo, deficiência de B12, intoxicações) e avaliar uso de álcool/ drogas.
8.2 Populações específicas
Idosos: apresentação atípica; atenção a causas médicas e risco de demência.
Adolescentes: comportamento de risco, autopunição, crise escolar; inclusão da família é muitas vezes necessária.
Gestação e puerpério: impacto psicofarmacológico e terapia preferencial; atenção ao risco materno-fetal.
8.3 Ética e confidencialidade
Garantir sigilo, consentimento informado para tratamentos e compartilhamento com família quando necessário (com cautela e respeito às normas éticas e legais).
9. Referências selecionadas (leitura e suporte técnico)
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5). 5ª ed. Washington, DC: APA; 2013.
World Health Organization. ICD-11: International Classification of Diseases 11th Revision. Geneva: WHO; 2018–2022.
National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Guidelines for depression, anxiety disorders, PTSD, OCD (diversos documentos).
Beck, A. T., & Al. (Cognitive Therapy references).
Barlow, D. H. Anxiety and its Disorders: The Nature and Treatment of Anxiety and Panic. 2ª ed. Guilford Press.
Foa, E. B., Keane, T. M., Friedman, M. J. (eds). Effective Treatments for PTSD: Practice Guidelines from the International Society for Traumatic Stress Studies.
Kazdin, A. E. Research Design in Clinical Psychology.
American Psychological Association. Guidelines for Telepsychology (2013; atualizações e materiais do APA Help Center).
World Health Organization. mhGAP Intervention Guide for mental, neurological and substance use disorders in non-specialized health settings.
Hegarty, K., et al. Composite Abuse Scale; Straus, M. A., et al. Revised Conflict Tactics Scales (CTS2) — para avaliação de violência interpessoal.
Recursos e contatos (Brasil)
Emergência / Polícia: 190
Central de Atendimento à Mulher (violência doméstica): 180
Centro de Valorização da Vida (CVV): 188 (apoio emocional 24h)
Procure serviços locais de saúde mental, unidades básicas de saúde, ambulatórios de saúde mental ou a rede hospitalar quando indicado.
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